segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Prostituição e Casamento

Quando a cultura patriarcal define o lugar das mulheres, de todas elas, estabelece um sistema de castas, no qual aparentemente a mulher “para casar” é a mais privilegiada.  Aparentemente isto só aparentemente. O casamento ainda é tido como fundamental para o desenvolvimento completo da mulher como ser humano, como se somente através dele ela atingisse a maioridade, valor verificável na utilização de pronomes tratamento diferentes para mulheres solteiras e casadas. 
Mesmo na atualidade, onde é comum o exercício de atividade remunerada, a independência econômica encontra obstáculos. A disparidade dos valores de remuneração entre os postos de trabalho oferecidos para homens e para as mulheres, dificulta mais às mulheres o ingresso em uma vida adulta e independente fora da casa dos pais. 

Associado a isto há o condicionamento psicológico que as meninas recebem desde a tenra infância. Enquanto os meninos usufruem mais da irresponsabilidade permitida pela infância, as meninas são ensinadas a serem mães e donas-de-casa. Isso muito antes de apresentarem qualquer interesse em relacionamentos românticos. São ensinadas a desejar o príncipe encantado, mas não têm total compreensão do que realmente envolve um relacionamento romântico, muito menos sexual. Não se percebe a brincadeira de “casinha” como uma sexualização antecipada da menina. Sua atenção é concentrada no casamento, mas o sexo é totalmente excluído do contexto. 
O casamento significa ter sua própria, casa, sua própria família, ser adulta, ser uma pessoa completa. E o príncipe é um meio de acesso ao castelo. O modo como o romantismo é representado (na forma de viagens, jantares e a própria cerimônia de casamento, onde a noiva é o centro das atenções) o associa ao desejo de uma vida ativa e pública, que proporciona visibilidade. A menina então é condicionada desde a infância a um comportamento que será mal visto na vida adulta, que é associar o casamento ao acesso a bens e facilidades, e por fim este comportamento é naturalizado na sociedade, cristalizando a ideia de que as mulheres são naturalmente “interesseiras”.


No ínicio da adolescência, quando começa a se interessar por sexo, novamente ele lhe é descrito como algo a ser evitado e temido. Ela já entende que haverá sexo no casamento, e somente neste contexto ele é permitido e romantizado, levando a expectativas irreais, e à consequente frustração. Se reforça então a ideia do sexo como uma concessão. Nesta ideia o homem é que deseja o sexo, a mulher cede. Observa-se isso mesmo em uma relação romântica, é comum a própria mulher utilizar o termo “dar” para a prática do sexo, ou fazer “greve de sexo”, quando suas expectativas não são atendidas. Sem que se perceba, o ato sexual confirma-se como moeda de troca dentro de uma economia simbólica.


Considerando a idealização de um matrimônio harmonioso como algo indispensável para a mulher atingir plenitude, e as concessões que ela precisa realizar para obtê-lo, não obstante a relativa independência econômica da mulher o casamento continua sendo um meio de vida. Comparando o número de relações sexuais não desejadas, nenhuma prostituta trabalha mais do que a tradicional mulher “honesta”, que precisa oferecer a desnaturalização total de seus desejos, em troca do poder por procuração, de um sobrenome, de visibilidade pública, de uma maioridade efetiva, de uma liberdade aparente.


Continua

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