Quando
a cultura patriarcal define o lugar das mulheres, de todas elas, estabelece um
sistema de castas, no qual aparentemente a mulher “para casar” é a mais
privilegiada. Aparentemente isto só
aparentemente. O casamento ainda é tido como fundamental para o desenvolvimento
completo da mulher como ser humano, como se somente através dele ela atingisse
a maioridade, valor verificável na utilização de pronomes tratamento diferentes
para mulheres solteiras e casadas.
Mesmo na atualidade, onde é comum o
exercício de atividade remunerada, a independência econômica encontra
obstáculos. A disparidade dos valores de remuneração entre os postos de
trabalho oferecidos para homens e para as mulheres, dificulta mais às mulheres
o ingresso em uma vida adulta e independente fora da casa dos pais.
Associado a
isto há o condicionamento psicológico que as meninas recebem desde a tenra
infância. Enquanto os meninos usufruem mais da irresponsabilidade permitida
pela infância, as meninas são ensinadas a serem mães e donas-de-casa. Isso
muito antes de apresentarem qualquer interesse em relacionamentos românticos.
São ensinadas a desejar o príncipe encantado, mas não têm total compreensão do
que realmente envolve um relacionamento romântico, muito menos sexual. Não se
percebe a brincadeira de “casinha” como uma sexualização antecipada da menina. Sua
atenção é concentrada no casamento, mas o sexo é totalmente excluído do contexto.
O casamento significa ter sua própria, casa, sua própria família, ser adulta,
ser uma pessoa completa. E o príncipe é um meio de acesso ao castelo. O modo
como o romantismo é representado (na forma de viagens, jantares e a própria
cerimônia de casamento, onde a noiva é o centro das atenções) o associa ao
desejo de uma vida ativa e pública, que proporciona visibilidade. A menina
então é condicionada desde a infância a um comportamento que será mal visto na
vida adulta, que é associar o casamento ao acesso a bens e facilidades, e por
fim este comportamento é naturalizado na sociedade, cristalizando a ideia de
que as mulheres são naturalmente “interesseiras”.
Considerando
a idealização de um matrimônio harmonioso como algo indispensável para a mulher
atingir plenitude, e as concessões que ela precisa realizar para obtê-lo, não
obstante a relativa independência econômica da mulher o casamento continua
sendo um meio de vida. Comparando o número de relações sexuais não desejadas,
nenhuma prostituta trabalha mais do que a tradicional mulher “honesta”, que precisa
oferecer a desnaturalização total de seus desejos, em troca do poder por procuração,
de um sobrenome, de visibilidade pública, de uma maioridade efetiva, de uma
liberdade aparente.
.png)
.png)

Nenhum comentário:
Postar um comentário